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alcides barbosa
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12/08/09



- A Cidade e o Monstro -
Planejamento e Teratologia


Relatos sobre o estado caótico da cidade e da sociedade são encontrados entre políticos, religiosos, artistas e todo tipo de pensadores. A pobreza cresce, a violência cresce, instituições sociais estão se tornando sem sentido, as pessoas não se entendem. A Babel está em todo lugar, guerras étnicas, guerras religiosas, comportamentos incompreensíveis, suicídios, a praga lá fora vindo nos pegar e as pessoas dizendo que as autoridades já possuem provas da existência de alienígenas. Pode ser que estejamos bem próximos do fim dos tempos, mas estes relatos apocalípticos que podem soar tão atuais não são obviamente nenhuma novidade. Eles estão sempre prontos para serem utilizados em momentos de crise. Alienígenas e toda uma família de monstros podem personificar estas situações com os mais diferentes significados e funções na sociedade.

Oque este termo – monstro – descreve é algo além do normal, algo excessivo ou excepcional. O monstro nunca chega neutramente, ele merece máxima execração ou máxima admiração. Neste sentido, ele se refere menos à Morfologia do que à Estética. Para um monstro negativo, por exemplo, deformidade é menos uma característica do que feiúra. O feio, contudo, como proposto por Mark Cousins, pode ser visto não como o negativo do bonito, mas como aquela coisa cuja existência excede sua representação. Ele é sempre mais do que se pode dizer a seu respeito, ameaçando assim “a ilusão de que existe um mundo que se apresenta coerentemente à experiência...”
[i].

Olhando para o monstro podemos tentar uma aproximação ao que há de incoerente, incapturável, ilegível, na “cidade em crise”. Este procedimento é talvez tão antigo quanto a própria cidade. O nome desta prática, Teratomancia (térata em grego = mostrum em latim = mostrar) já estabelecia em palavras o relacionamento entre monstro e revelação. Os Assírios, por exemplo, tinham um tipo de “tábua de causalidades” ligando o aparecimento dos monstros a presságios para a cidade:

Se uma mulher dá a luz a um leão: queda da cidade, prisão do rei.
Se uma mulher dá a luz a um tipo de peixe: o reinado será próspero.
Se uma mulher dá a luz a gêmeos unidos pelo ventre: esposa e marido brigarão.
Se uma mulher dá a luz a gêmeos unidos pela coluna: os deuses abandonarão o país, o rei e seu filho deixarão a cidade.
Se uma mulher dá a luz a uma criança com duas cabeças, duas bocas, duas colunas, quatro mãos e quatro pés: destruição da cidade.
Se uma mulher dá a luz e a criança tem cabeça de leão: um rei poderoso para o pa
ís.
[ii]

Podemos notar que os monstros na tábua são monstros reais, não imaginários.
[iii] Esta é uma distinção importante no que concerne ao campo de existência dos montros, como Massimo Izzi explica em “I Mostri e L´Immaginario”: os reais ele chama de naturais, e os imaginários ele chama de monstros extranaturais e abstratos. Os montros naturais são aqueles cujas monstruosidades são físicas, biológicas, sendo alienígenas também um exemplo; os extranaturais são os “seres intermediários”, monstros com poderes particulares e caráter divino, como anjos e heróis gregos; os abstratos são montros criados para uma existência conscientemente fictícia, como o Tragelafo.[iv] Mesmo tendo criado um sistema abrangente de classificação, Izzi está particularmente interessado, como a maioria dos teratologistas, na forma de existência dos monstros extranaturais, e quando os analisa é primeiramente considerando seu caráter mitológico. Discutindo os monstros contemporâneos na arte e na publicidade ele procura a persitência daquelas formas dos mitos. Izzi razoavelmente argumenta que seria um absurdo atribuir a uma criança nascida com um só olho o significado atribuído a Poliphemo. [v] Os diferentes campos de existência dos monstros têm que ser considerados, mas como vimos na tábua dos Assírios, a linha separando monstros reais e imaginários nem sempre é tão óbvia como ele sugere, e está longe de ser natural. Para nosso interesse neste texto [vi] não importa encontrar a recorrência de predições apocalípticas ou montros mitológicos em nossos tempos, mas observar o constante movimento da linha entre conhecido e desconhecido, real e imaginário, normal e anormal, ao processo de de-monstração.

No âmbito da cidade, uma análise “objetiva” é muito a expressão de metáforas usados pra estruturar o entendimento da “realidade”. Uma mudança nessas metáforas implicará em novas expectativas considerando a mesma situação. É como monstros são “normalizados”. As metáforas sempre iluminam algumas partes de um fenômeno sob consideração enquanto também escondem outras partes. Se é assim, monstros sempre surgirão e a “realidade objetiva total”, se é que existe algo assim, será sempre inalcançável. Daí que no planejamento urbano informações serão sempre parciais e as coisas potencialmente fora de controle.

Precisamos então lembrar de um aspecto básico da definição de planejamento: antecipação. Num exemplo extremamente simplificado: a cidade já foi pensada metaforicamente como uma “máquina”, onde se controla o processo para antecipar o resultado. Essa antecipação torna-se sinônimo de controle e administração. Se, em vez disso, pensarmos a cidade metaforicamente como um “jogo”, ela torna-se sinônimo de estratégia, é mais importante antecipar os próximos passos dos outros jogadores, como eles entenderão sua situação e como reagirão. Aqui a importância da metáfora em um outro nível: todas as reações estarão relacionadas a um sistema de verdades. É aí que surgem os monstros. Eles são avisos, carregam presságios e, o mais importante, são uma possível evolução de qualquer ordem: monstros são monstruosos, num sentido, porque são concebidos em função de nossas experiências, mas não cabem na metáfora que torna coerente a realidade.


[i] M. Cousins, The Ugly, in AA Files 28.
[ii] C. Focey, Présages Assiriens Tirés des Naissances, citado in M. Izzi, 1982, I Mostri e l´Immaginario, p.18. Minha tradução.
[iii] Esta idéia de que monstros humanos são presságios perdurará até o Renascimento.
[iv] Ser mitológico grego confrontado por Ulisses. Como o Cíclope tem apenas um olho, sendo associado a um vulcão.
[v] Ser alegórico conscientemente inventado na Grécia antiga.
[vi] Dissertação "A Cidade e o Montro: metáforas e políticas urbanas", Architectural Association, 1995.

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trecho de "A Cidade e o Montro: metáforas e políticas urbanas"

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03/08/09


residências em fase de projeto, 2009

campinas

curitiba

são paulo

campinas

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01/06/09

- Menos Partidas e Mais Espetáculos -

A quantidade de torcedores é limitada, assim como é limitada sua disponibilidade de tempo e dinheiro para acompanhar seu time em infindáveis maratonas. Além disso, a multiplicação das mídias torna cada vez menos importante, como fonte de renda, sua presença nos estádios. Mudar a fórmula de disputa, criando turnos e semifinais, pode trazer algum benefício aos finalistas, mas não tira os campeonatos do marasmo.

Por que, então, não reduzir a oferta de jogos? Se em vez de 2 jogos com meia lotação tivéssemos um só jogo de estádio lotado, não seria um ganho qualitativo? A arquibancada ficaria mais bonita, a grama ficaria mais bonita, os jogadores jogariam mais bonito. Além disso, com a diminuição do número de jogos sobrariam estádios desocupados. Enquanto tivéssemos jogos no Pacaembu poderíamos ter shows no Canindé, tornando sagrados certos gramados.

O campeonato brasileiro, dividido em 2 grupos, poderia manter os 20 times diminuindo de 38 para 18 rodadas a fase de pontos corridos. Primeiro e segundo lugar de cada grupo jogariam semifinais e finais em ida e volta, resultando mais 4 rodadas, num total de 22 rodadas. Com rodadas apenas nos finais de semana o campeonato duraria 5 meses. Nos dias de semana ainda poderiam ser disputados, com maior qualidade, a Libertadores, Copa do Brasil e Copa Sulamericana.

Através da mídia os grandes times vêm concentrando toda a torcida nacional. Com isso os pequenos clubes deixam de ter importância nas culturas locais e na formação de novos jogadores. Assim as franquias dos grandes clubes se tornarão a única forma de renovação de nosso futebol. Ao levar os grandes times para desfilarem diante de rivais desestruturados do interior, o campeonato paulista só aumenta ainda mais as torcidas dos grandes nessas cidades.

Como forma de fortalecer os clubes do interior a federação poderia valorizar as rivalidades locais. A divisão poderia ser por regiões, como a Copa do Mundo. Numa primeira fase classificatória teríamos os campeonatos regionais do Oeste (Presidente Prudente), Norte (Ribeirão Preto), Centro (Campinas), Leste (Litoral e Vale do Ribeira), ABC (Região Metropolitana de SP) e Capital. Cada campeonato regional teria 6 equipes, pontos corridos ida e volta, totalizando 10 rodadas. Seriam 36 times na primeira divisão. Uma fase final, o Paulistão, seria disputada como a Copa do Brasil, com os 6 campeões e 6 vice-campeões regionais no mata-mata.

Durante essas da fase final do Estadual, para garantir um “tour” dos outros grandes pelo interior, poderiam ser criadas pequenas competições patrocinadas por empresas, incluindo times locais, da capital, de outros estados e do exterior.

Menos partidas e mais espetáculos.
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- Lei de Incentivo ao Ócio -

Ao reduzir o imposto sobre os automóveis o governo protege o trabalho, atendendo a sindicalistas e industriais. Mas com isso estimula poluição, congestionamentos e acidentes. Custos sociais que se somam à diminuição de sua capacidade de investimento por essa renúncia fiscal. É um absurdo incentivar o consumo de carros para evitar que algumas indústrias fechem. Por que não incentivar a tranferência de parte desses trabalhadores para outros setores? Ao invés de estimular a expansão do consumo automobilístico, estimular a escassez de trabalhadores no setor.

Os setores que deveriam se beneficiar são aqueles ligados ao lazer (esporte, cultura, turismo). De que adianta leis de incentivo à produção cultural se os museus, teatros e cinemas estão vazios? É necessária uma lei que garanta um fluxo do consumo cultural.

Para proteger a indústria existente enquanto transfere o trabalho para o setor de lazer, o governo poderia propor um plano de investimentos em produtividade em contrapartida à diminuição da carga horária. Seria um avanço em setores como um todo, à partir do patamar existente, sem afetar a competição interna aos setores. Também como contrapartida os sindicatos e governo aceitariam a conversão de parte proporcional dos salários em benefícios ligados ao lazer. Vale-ingresso para filmes nacionais, vale-estadia em estâncias turísticas, vale-academia, vale-cursos, logicamente isentos de custos trabalhistas. Ócio compulsório, incentivo à cultura e à saúde preventiva.

A criação de novos feriados nacionais também reduziria a produção industrial sem a redução de salários. Esses feriados, móveis, seriam dedicados também a estimular a indústria de lazer e poderiam ser distribuídos nos meses sem feriados e também para emendar “feriadões”. Poderiam ser os dias dos Esportes, das Comidas, do Turismo, do Meio Ambiente, das Ciências, da Cultura, das Artes, da Ética, da Justiça, do Outro, da Paz, do Amor etc.

Em termos urbanos, a diminuição da jornada de 8 para 6 horas possibilitaria um melhor escalonamento nos horários de entrada e saída do trabalho, diminuindo a pressão nos horários de pico no transporte e no sistema viário das cidades. Isso pode adiar em alguns anos a necessidade de certos investimentos públicos. Possibilita também tempo livre para consumo de cultura e esportes, qualidade de vida.

A regularidade e maior oferta de feriados diminuiria a sazonalidade e os picos de demanda existentes sobre a infra-estrutura turística (congestionamentos, falta de água, falta de policiamento etc.). Distribuindo melhor seus recursos, o setor turístico poderia também adiar parte dos novos investimentos públicos destinados a aliviar esses picos.

A transferência de parte da riqueza nacional dos setores agropecuário e industrial para o setor de lazer pode gerar maior variedade de serviços e produtos sem competição internacional. Se um carro ou a soja brasileira competem com similares de outros países, os desfiles de carnaval do Rio, as praias do Nordeste, a Foz do Iguaçu, a MPB, o futebol brasileiro, não encontram similares em outras nações.

Trabalhando menos, melhor viveremos!
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31/10/08


- defenestratório -

Para a exposição Cidade Ateliê Aberto a Ultradesign criou a intervenção arquitetônica Defenestratório, que se constitui na construção de uma passarela de madeira acessível aos visitantes do Ateliê Aberto a partir da janela de sua biblioteca. O projeto não trabalha aspectos estéticos, mas a própria experiência arquitetônica.

Defenestrar: verbo transitivo direto. atirar (alguém ou algo) janela afora, violentamente. (dicionário Houaiss)



Still de Vertigo - Um Corpo Que Cai de Alfred Hitchcock, 1958.



Segunda Defenestração de Praga de 1618, gravura em madeira de Matthäus Merian.
em 23 de maio de 1618, dois ministros foram atirados pela janela por manifestantes, episódio que deu início à Guerra dos Trinta Anos.




Salto no Vazio, fotomontagem de Yves Klein, 1960.
a altura nem é tanta, mas é suficiente para causar a sensação de liberdade.
da casa - interior, conhecido - em direção ao urbano – exterior, vazio.




Anúncios para Arquitetura, Bernard Tschumi, 1978.
arquitetura como propiciadora de eventos - sensoriais, históricos, sociais e urbanos.


Cidade Ateliê Aberto, Ultradesign, 2006.
a janela representa sempre uma tensão entre interior e exterior, entre o que acontece dentro do ateliê e a cidade. última saída, o defenestratório amplia essa tensão ao limite, incitando a soluções drásticas.

com patrícia martins, 2006

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30/10/08


- igreja passagem -

mesmo com a reestruturação viária do campus, o lugar destinado à igreja não deixa de ser uma sobra, um pedaço de terrra em meio aos acessos, grupos de árvores esparsos e os prédios muito grandes com seus anexos e apoios. área remanescente da inflexão da via que, neste ponto, rompe a ortogonalidade da implantação e aponta para um horizonte, no canto da praça. nessa diagonal, exatamente, está o centro nervoso do campus, a porta do hospital, onde se cruzam médicos, estudantes e a população.

assim, a primeira decisão foi considerar o lugar como um vale ligando o hospital aos novos blocos. rampas suaves substituem a escadaria, direcionando o fluxo e trabalhando a terra, tomando sua forma. fazendo uma ligação diagonal entre os níveis do novo pátio e do hospital, reforçam os percursos, a continuidade, são um elemento estrutural na imagem do campus.

aí está a igreja, estabelecendo uma ligação, um caminho. a igreja como parte das ondulações do terreno, permeando os edifícios, subjacente a eles. toda essa movimentação do solo reivindica uma relação com a natureza e toda a sua carga simbólica. a cúpula, abstração geométrica da perfeição e da totalidade, dá lugar à onda, concreta, arrebatadora e sem limites. o cruzeiro é o símbolo. destacado das formas naturais, marca a paisagem.

busca-se a materialidade e não o etéreo. a ação do tempo se mostra no materiais: concreto, cobre e madeira. mesmo os vidros fogem da transparência: impressos nas duas extremidades deixam entrever o interior e através dele. diante do altar um vidro fosco cria uma luminosiadade difusa, suave, como que filtrada por uma névoa.

igreja-passagem, tubo da onda, túnel.

extraído do memorial do concurso para a igreja da puc, campus 2, campinas, 2001. com marcus cley




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08/10/08


- a cidade sob o tapete -

Um grande tapete verde, com uma topografia ondulada, denunciando rio, trens, viadutos, estacionamentos e edifícios encobertos. Num vértice do tapete está o Parque Cidade Jardim, em outro a Daslu. Uma via serpenteia sobre essa topografia verde e possibilita o prazer de dirigir seu carro livremente, de vidros abertos. Foyers e manobristas dão conforto e criam um momento social nas suas extremidades. Quem prefere ir correndo apenas com seu personal trainner não precisará mais dos guarda-costas, pois estará em um jardim suspenso de acesso super restrito, totalmente monitorado.

Sob o tapete passam emparedadas as vias expressas da marginal e o que sobra de solo é um grande asfalto de estacionamentos ilhados. Sobre essas ilhas, sob o tapete, edifícios compactos de multiuso conectados por galerias comerciais, que também se ligam às marquises nos dois vértices. O poder público certamente será o principal investidor já que o projeto cria mais área verde sobre o tapete, mais área construída sob o tapete, mais estacionamento, menos obstruções ao trânsito, menos crimes, maior controle.
Não é utopia, é o futuro, a cidade sob o tapete!


Concurso de idéias: Ponte Daslu - Pq. Cidade, 2006


18/09/08


- meio fio -
dia internacional sem carro em campinas

No dia 22 de setembro, Campinas teve seu cotidiano modificado por um projeto artístico de intervenção urbana que conectava a cidade às comemorações internacionais do Dia Sem Carro organizadas na cidade pela EMDEC – Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas, em conjunto com a Setransp – Secretaria Municipal de Transportes.

O espaço que abriga a torre e a praça do Castelo, como é chamado o bairro, lugar escolhido para a intervenção de 2006, ampliou a conjunção proposta entre estética, sociedade e educação. A proposta deste ano efetivou a paralisação completa das três faixas de rua do entorno da praça, uma região que, além de estar localizada próxima à central, é ponto de circulação urbana intensa de automóveis e está cercada por muitos comércios, postos de serviços, escolas e rádio transmissoras. A seqüência de idéias aqui apresentada discursa sobre os aspectos híbridos cada vez mais fortes no campo da ação contemporânea de profissionais ligados direta ou indiretamente à arte, à cidade e aos seus fluxos. Explora distintos aspectos do projeto para dar continuidade às discussões geradas após a ação propriamente dita. Optando por um formato de entrevista cuidadosa e aprofundada, a dupla de arquitetos Patrícia Martins e Alcides Barbosa – integrantes da Ultradesign Arquitetura e autores do projeto Meio Fio - responde às questões sobre Cotidiano, Arte e Urbanidade para Sylvia Furegatti,pesquisadora do assunto e integrante do Ateliê Aberto de Campinas.

Ateliê Aberto: Pelo tipo de material, pela linguagem gerada, dentre vários outros aspectos, o projeto Meio Fio indica uma linha constitutiva de intervenções artísticas sobre o meio urbano que lembra muito os efeitos visuais praticados pelo búlgaro Christo Javacheff nos empacotamentos de equipamentos urbanos que realiza pelo planeta. Contudo, mais do que a forma, remete-nos ao conceito praticado por ele de intervenção sutil sobre o site. Isso significa intervir de forma harmônica, mesmo quando o ponto de partida conduz a um problema grave, crônico, como esse que enfrentamos com uso do carro nos centros urbanos atuais. Como vocês acreditam que a sutileza pode ter agido no caso do projeto Meio Fio?

Ultradesign: O escopo consistia em criar uma intervenção urbana que colaborasse com o sentido de todo o evento, ou seja, difundir a reflexão sobre o uso do carro na cidade. A nossa maneira de fazer isso foi através da experiência das pessoas na rua, balizada por atividades e elementos visuais que se referiam à própria rua. Esse arco feito pela tela não é gesto, nem referência arquitetônica. Ele segue exatamente o meio-fio, na extensão necessária para evitar o cruzamento da praça pelo público. A altura do arco foi definida pelos postes de sinalização e pela altura dos ônibus, inclusive usando os mesmos tubos de aço das placas urbanas. Por não podermos atirantar nem furar a praça, e para não criarmos uma grande base, que além de feia criaria obstáculos aos pedestres, optamos por fazer 26 furos de 6 cm de diâmetro por 30 cm de profundidade no concreto do meio-fio, o que fez com que a estrutura desaparecesse. Foi prevista uma folga de 1 cm no diâmetro do furo a fim de corrigir, com uma cunha de madeira, o prumo do arco e absorver irregularidades do piso. Nossa tela, através da transparência, evidenciou as barreiras para os pedestres. E as barreiras são sutis, como degraus de 20 cm de concreto ou a velocidade dos veículos. Então, usamos a mínima presença física necessária para assegurar sua visibilidade, no sentido mais amplo do termo. Trazer visibilidade a um movimento que busca alternativas pra melhorar a qualidade de vida na cidade. Existe uma leveza visual, mas em nossa opinião, essa sutileza a que você se refere é conceitual. Está em um elemento que parte de uma vocação funcional (a de organizar as atividades) e dela consegue sua forma e seu efeito através da inversão de usos que provoca: a praça, isolada pela dificuldade de acesso, mas ao mesmo tempo visível pela transparência, tem seu caráter árido e isolado reforçado pela alta concentração dos pedestres na rua, no lugar dos carros. Em parte, o Meio Fio é esse elemento visual; mas quando está realmente operando, ele é uma barreira que criou alta densidade no asfalto e baixíssima densidade na praça seca. Ele foi construído para estruturar o evento e não teria o mesmo sentido sem todas aquelas pessoas. Um outro aspecto que surgiu relacionado à sutileza da proposta foi todo o trabalho de montagem que aconteceu no fim de semana anterior – quando da execução dos furos (2 dias) e da montagem do arco e da cobertura, na madrugada anterior do evento. A impressão que ficou foi de que tudo surgiu de repente, na hora do evento.



Ateliê Aberto: Deixar a praça limpa e ocupar as vias públicas. Convidar pessoas para o lugar onde antes só estavam os carros. Alterar a velocidade e a paisagem conhecida indicam processos de transformação levantados com a construção temporária do arco. A idéia da troca dos usos do espaço da praça e da rua constrói uma poética tão instigante quanto caminhar sem a preocupação da sinalização e das regras de conduta no meio urbano estressado da atualidade. Como a arquitetura e o urbanismo trabalham essa suposta relação de utopia? A proposta do Dia sem Carro, movimento internacional que perdura por nove anos (praticada mais recentemente no Brasil, ainda em poucas cidades) pode ser compreendido como um projeto urbanisticamente utópico?

Ultradesign: Na cidade sem meu carro. Na cidade sem meu lugar. É bem sabido que não é por exclusiva praticidade que as pessoas se apegam a seus carros. Pedir para que saiam sem carro é como um convite para uma outra identidade. Inicialmente, queríamos que os carros passassem entre os ciclistas e pedestres, em livre negociação. A intervenção consistiria na interação entre os elementos espaciais e da ação dos agentes da EMDEC monitorando o fluxo entre carros e pedestres dentro do evento. O foco estaria mais na convivência entre os diferentes modos de deslocamento. Apesar de parecer utópico, o compartilhamento dos espaços é considerado hoje como um objetivo a ser alcançado. Como havia uma extensa programação para o evento e a necessidade de muitos equipamentos, optamos por focar mais na rua como lugar de estar, livre de trânsito, parado. Essa inversão foi utilizada de várias maneiras. As pessoas na rua, a praça vazia, a água presa na torre vertical liberada horizontalmente nos aspersores, uma barreira transparente, os ônibus como salas etc. O evento gerou um desconforto para quem queria só passar de carro, mas os benefícios ficaram evidentes para quem estava lá. Quando o evento for feito com maior freqüência e em mais cidades do Brasil, de modo a ser incorporado na rotina das pessoas e principalmente na pauta da mídia, perderá esse caráter "utópico". É como o rodízio em São Paulo – as pessoas cooperam, organizam caronas, mudam suas atividades costumeiras em função disso. Dormir até um pouco mais tarde e emendar o trabalho com um happy-hour na esquina, ou acordar mais cedo e pegar o filho na escola à tarde passam a ser atividades possíveis, socialmente aceitas.


Ateliê Aberto: Partindo da materialização de construções já admitidas como simbólicas para o pensamento contemporâneo, dadas por sua criação numa estrutura mutante, inovadora, tão ousada quanto atualizada no plano financeiro proposto, tal como o projeto de Frank Gehry para o Museu Guggenheim de Bilbao-Espanha, passamos a compreender melhor quais são as novas demandas e tempos dedicados ao trabalho do arquiteto e do artista no mundo contemporâneo. Esses dois agentes, cada vez mais, fundem suas habilidades em projetos híbridos nos quais Arte e Arquitetura configuram termos indistintos. O exemplo, obviamente grandiloquente, serve-nos apenas para pontuar os esforços que temos na produção e no pensamento de projetos culturais em lugares menos privilegiados do planeta e pretende, antes de qualquer coisa, ressaltar a qualidade efêmera das propostas de intervenção para o Dia Sem Carro que têm sido executadas no Brasil. O efêmero em Arte tem sido quase que uma convenção desde os primórdios da contemporaneidade artística, guarda relações com a facilidade e viabilidade de pesquisa com novos materiais, com o lugar alternativo ao circuito oficial. Imprime a qualidade experimental típica do processo criativo das novas linguagens. E na Arquitetura? Como se dá essa equação tempo x permanência? No caso do projeto Meio Fio, esse empenho e dimensionamento foi mais fácil ou mais difícil?

Utradesign: O programa de um evento, comparado ao de um edifício, exige maior detalhamento do tempo e dá maior flexibilidade à forma. Também o tempo de projeto é bem maior do que o tempo de execução. Essa inversão acontece de modo a reduzir ao máximo o período de montagem e desmontagem. No caso do projeto Meio Fio, conseguimos reduzir os elementos a dois tipos de poste, dois tipos de fios de nylon e duas telas inteiriças (horizontal e vertical). Essa racionalização construtiva seria uma especificidade arquitetônica? E os significados explorados seriam especificidades artísticas? Vendo dessa maneira, talvez a questão do tempo, hoje comum a ambas as disciplinas, seja o que leve a essa indistinção. No caso do projeto de Frank Gehry para o Museu Guggenheim de Bilbao-Espanha, a efemeridade ou o tempo são tratados no plano financeiro, de viabilidade econômica do empreendimento. No caso do Meio Fio, é um problema do plano operacional, de funcionalidade do evento. É o que torna viável um fato cultural como este na situação brasileira. Diferentemente do museu norte-americano, instituições como a EMDEC e a Secretaria de Transporte lançam mão da intervenção artística como meio de educação e melhoria da qualidade de vida. Porém, mesmo nos países ricos, a menor vida útil dos edifícios é uma tendência, associada à maior velocidade do fluxo de capitais e do dinamismo econômico e cultural. Assim, o efêmero em arquitetura também está cada vez mais associado à inovação e à experimentação. Gehry foi mais efêmero quando era alternativo. A permanência é a permanência da instituição que está sendo construída. Se continuar funcionando no mercado e na cultura, permanece na arquitetura. A arquitetura dá forma a essa instituição. Hoje, temos ambulantes fixos, por que não efêmeros permanentes? Não há oposição para a arquitetura, ela pode internalizar os conflitos. Se a instituição quiser. Casa de Família, Escritório de Empresa, Arte do Estado.


Ateliê Aberto: Li há pouco um artigo da Sueli Rolnik (Um novo lugar para o velho centro) no qual ela discorre sobre os sentidos possíveis de serem aplicados à reabilitação dos centros urbanos brasileiros, partindo da idéia da urbanização como mercadoria de luxo. Pontuando o contexto de um país de grandes adversidades culturais e sociais que sofre os problemas da falta de memória, preservação e valorização dos seus centros urbanos, como o nosso, ela pontua os problemas atuais que as instituições públicas e privadas têm enfrentado para ressemantizar, sem excluir, o passado histórico dos antigos centros. Tudo isso me fez pensar no quanto as intervenções artísticas elaboradas para espaços públicos são costumeiramente confundidas/acusadas de serem propostas setorizadas, elitistas e compulsórias originadas por artistas ou arquitetos numa investida contra o uso cotidiano do espaço dito público, sem necessariamente entrar em acordo com aquela comunidade que será atingida. Gostaria de discutir com vocês sobre o sentido do luxo inerente às propostas artísticas que incidem sobre o urbano hoje...e sobre essa suposta proteção do usuário-espectador-consumidor. Como seria possível tornar a sofisticação típica desse formato de trabalho mais palatável? Como o projeto empregou ou absorveu meios para se fazer compreendido conceitualmente? E por fim, vocês acreditam que essa conversa que estamos estabelecendo aqui se inclui nesse tipo de preocupação?

Ultradesign: Em nossas grandes cidades, devido aos grandes fluxos migratórios, não faz tanto sentido se preocupar com a memória, mas com o reconhecimento de uma nova identidade. A ressemantização deveria ter a ver com o valor de uso atual do lugar, incluir atividades marginais e minorias, propor uma identidade coerente com a realidade urbana. Parece-nos que a maioria das propostas de reabilitação urbana não tem se preocupado em ressemantizar nada. A tônica das propostas tem sido colocada no valor imobiliário, no custo das estruturas urbanas ou na nostalgia idealizadora do passado. Existem, contudo, intervenções artísticas/arquitetônicas/urbanísticas como a de Vito Acconci para o ArteCidade. Elas têm como estratégia uma real incorporação de áreas degradadas da cidade por quem realmente as usa, de forma a conseguir uma renovação urbana não meramente embelezadora, mas programática. O que tornava palatável a proposta de Acconci? Nos afastamos de citações arquitetônicas ou artísticas e nos balizarmos pelos aspectos práticos. Os materiais utilizados não foram de maneira nenhuma luxuosos, pertencem ao mundo da construção agrícola, do trabalho. Não possuem característica de representação e nem de afirmação de um caráter artístico, não se preocupando com uma compreensão conceitual. Na nossa proposta, privilegiamos a leveza, a simplicidade e a eficiência construtiva deixando que essas características transparecessem na forma, de modo que o próprio uso e a experiência do lugar lhes dessem sentido. Essa nossa conversa é um caminho inverso, é uma teorização da experiência, e certamente tem sua função também, possibilitando uma reflexão e uma fruição intelectual que se dá após o evento.


Ateliê Aberto: A ação trabalhada nas comemorações do Dia Internacional sem Carro adota o contexto contemporâneo da intervenção para se fazer notar na paisagem urbana. Tem situado sua presença em pontos nodais para se compreender o fluxo de gente, carros, das atenções quanto à sinalização e comunicação outdoor. Os lugares escolhidos para tais ações são sempre cruzamentos de rua importantes ou espaços de grande concentração de trânsito. Não faria o menor sentido se não ocorressem exatamente nesses pontos. É claro que a reação do público que visita esses projetos varia muito, mas nas experiências já realizadas com o espaço urbano de Campinas é possível se comprovar pelo menos duas linhas de resposta que replicam em outros centros urbanos. A primeira delas nos leva à resposta dos pedestres espontâneos, usuários cotidianos daquele lugar que compreendem e elogiam o contexto sugerido por esse tipo de projeto, pessoas que nem sempre captam os aspectos estéticos do projeto, mas percebem uma valorização local em ações coletivas institucionais feitas em nome de um ideal público. De outro lado, a segunda voz é a dissonante. Diz respeito aos usuários motorizados (geralmente assombrados pela pressa do cotidiano interrompido pelo projeto). Esses espectadores observam, antes de qualquer coisa, as alterações do seu cronograma para aquele trecho diário e esboçam reações entre dúvida e indignação pelo constrangimento gerado pela intervenção. Vocês certamente tiveram experiências dos dois gêneros nesse dia. Poderiam relatar os exemplos mais marcantes?

Ultradesign: Vivenciamos as duas experiências e percebemos respostas diferenciadas dos mais diversos públicos em relação a intervenção Meio Fio". Confirmamos três grupos marcantes.Um grupo que tem uma experiência estimulada – composto por alunos, integrantes de instituições, professores e funcionários da EMDEC – que, invariavelmente, aprova a iniciativa, é receptivo à intervenção, e, por consequência, a defende e a divulga. Acreditamos que, mesmo sem o contato cotidiano com a arte, esse grupo é o que busca absorver os conceitos e a experiência. Por se tratar de um momento extra-classe, a visita passa a ser uma referência marcante e que os prepara para novos contatos. O público formado pelos moradores e comunidade das imediações da instalação apresenta um interesse espontâneo e curioso de presenciar a mudança promovida no cenário cotidiano, mas sua opinião sobre a obra oscila entre a aprovação, pela valorização do espaço e até mesmo visibilidade midiática, e repúdio, pelos transtornos impostos à mudança na rotina do trabalho, da circulação e do trânsito. E, por fim, há uma resposta extremamente desfavorável dos motoristas, pela cultura de apropriação do espaço da via como espaço do carro - leia-se seu espaço, que não pode ser compartilhado com os demais segmentos sociais. Essas pessoas, mesmo frente à obra, não conseguiram sequer tomar conhecimento do que acontecia. A cegueira imposta pela necessidade de cumprir seus compromissos impediu qualquer possibilidade de contato com a intervenção. Não podemos deixar de considerar que a cultura da velocidade e o ritmo frenético da contemporaneidade foram barreiras limitadoras para a fruição no contato com a obra proposta.



Ateliê Aberto: Qual o tempo ideal para uma intervenção urbana com as características que geraram esse projeto?

Ultradesign: Se inicialmente se pensava na jornada apenas como um dia de reflexão, hoje o evento é produto de ações de meses, como o concurso entre estudantes da rede pública de ensino ou o projeto de intervenção artística. Isso ainda depende de um esforço de realização e divulgação quase que exclusivo da EMDEC/Setransp e dos colaboradores diretos. Com o sucesso atual e a ampliação crescente da divulgação pela mídia espontânea, esse evento vai se transformando numa expectativa de grupos cada vez maiores e mais abrangentes. O tempo ideal seria um processo contínuo, como o de uma escola de samba, onde tanto a intervenção artística como as outras atividades do evento se pulverizam em múltiplos agentes e ações ao longo do ano, para culminar em um dia de celebração.



Ateliê Aberto: Pensando sobre a parte mais plástica do projeto, ficamos com as referências da transparência, da clareza e da leveza estabelecidas pela estrutura criada que ora se apresenta na verticalidade do arco/parede/divisória do espaço, ora se configura na cobertura do trecho menor. De que forma essas escolhas podem refletir um direcionamento mais arquitetônico que artístico ao projeto? Em outras palavras, como os dois aspectos desse trabalho se encontram na proposta Meio Fio?

Ultradesign: Independentemente do resultado plástico, o processo de projetação objetivou, em primeiro lugar, o evento. A característica efêmera da proposta fez com que utilizássemos materiais facilmente transportáveis, com poucos elementos e de rápida montagem. Esses mesmos elementos foram dispostos horizontal e verticalmente para a criação de ambientes ou ambiências. Eles eram índices de uma organização espacial de natureza programática e não estética. Esse encontro entre o artístico e o arquitetônico de que você fala se deu quando um "lençol" branco esticado horizontalmente virou uma "cobertura" e, quando esticado verticalmente, virou uma "parede". Essa cobertura transparente, contudo, não protegia da chuva ou sol, mas definia um lugar especial no evento, o auditório, onde ocorreram shows, premiações e discursos. Em conjunto com a parede transparente, que não obstruía, criou-se um "ambiente interno" no meio da rua, um local de concentração de pessoas e de concentração da atenção, definido pela leve presença das telas. A sua localização reforçou uma escolha anterior, baseada na topografia da rua: ela ficou no trecho mais elevado e plano da rotatória. O arco/parede necessariamente foi localizado também nesse trecho da rua, junto ao auditório, e se prolongou para o oeste onde encontrava um raio maior do meio fio, o que possibilitou maior unidade deste elemento vertical, fechando dois quadrantes da praça. Esse arco criou um elemento que funcionava em perspectiva, relacionando-se visualmente com a torre para quem estava no lado mais baixo da praça. Desse ponto de vista, prevaleceu essa percepção visual, fotogênica, proporcionada pela distância e pelo vazio da praça, reforçados pelos vaporizadores e pelo branco da tela, que parcialmente ocultavam a aglomeração e agitação na parte alta. Para quem estava próximo à tela, havia uma percepção mais tátil e labiríntica, a todo o momento em contato com os elementos de grande porte e a multidão, que se aglomerava impedindo uma visão de conjunto, totalizante. Essa "parede" não impedia a visão por ser semitransparente e intensificava as relações que buscamos de cheio e vazio entre praça e rua.



Ateliê Aberto: Toda a proposta, movimentada pela EMDEC (Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas) e pela Setransp (Secretaria Municipal de Transportes de Campinas), indica um tipo de atuação que tem acontecido com freqüência na produção artística da Arte Contemporânea. Cada vez mais a apresentação de projetos artísticos elaborados como eventos efêmeros extra-muros e não como exposições de objetos protegidos pelos espaços convencionados para a Arte, aponta para uma pulverização definitiva dos agentes que dão origem às manifestações culturais e artísticas. Deixa de ser pressuposto óbvio que o museu ou o centro cultural sejam proponentes exclusivos de processos de sensibilização estética para sua população. Outras instituições têm se ocupado desse processo, reforçando o pensamento de Baudrillard quando esse autor faz uma relação entre a desmaterialização do objeto artístico no século XX e a conseqüente estetização da vida cotidiana atual, tal qual temos presenciado. O projeto para o Dia Internacional sem Carro, em suas duas últimas edições na cidade de Campinas, avança para além do seu primeiro tom educativo, formal, movido pela esfera pública municipal ocupada com o trânsito e o pedestre. Sua abertura para alcances maiores que os administrativos fomenta a qualidade de humanização das relações conhecidas de trabalho, lucro e uso comum do espaço urbano. Nesse caso, consegue isso por meio da Arte em seu formato contemporâneo de intervenção. De que maneira, em seus territórios originais, Arte e Arquitetura continuam essa contaminação?

Ultradesign: Essa contaminação é um processo cultural maior, que funde disciplinas e redefine instituições. A Sony não é mais uma produtora de hardwares somente, ela também produz os conteúdos e subprodutos dos pacotes de consumo. Uma autarquia responsável pelo trânsito e transporte na cidade estende sua atuação para a educação no trânsito; depois, para a conscientização sobre modos de transporte; e, por fim, à própria sensibilização estética do pedestre na rua. Nesses eventos, Arte e Arquitetura são antes de tudo mídia, são meios através dos quais as novas instituições atingem seu público. Dentro desse processo de contaminação, podemos dizer que eventos como o Dia Internacional na Cidade Sem Meu Carro propõe atividades que não são da esfera do consumo ou da produção, sua eficácia tem a ver com a conscientização, com o caráter lúdico e humano, com a interrupção de um cotidiano de ações automatizadas. Isso alcançou não somente o público do evento, mas os comerciantes da região, os motoristas que foram desviados de sua rota diária e inclusive o trabalho dos funcionários da EMDEC, que passaram a lidar, entre suas tarefas cotidianas, com questões de natureza não estritamente funcionais. Por outro lado, vemos que a tendência internacional é de projetos como o estacionamento Mazda do NL Architects em Amsterdã, aonde os motoristas são pagos para estacionar em vagas que formam a logomarca do fabricante de carros, continuando o processo de desmaterialização do objeto arquitetônico e se integrando à estetização do cotidiano. Essa contaminação ocorre também no próprio programa arquitetônico. Categorias de uso historicamente distintas se somam na busca pela extrema eficiência e dinamismo. De uma maneira ou de outra, a arquitetura contemporânea não se limita a recepcionar um acontecimento, ela o promove.




Ateliê Aberto: Dentro dessa proposta vocês incorporaram outras atividades lúdicas e de palestras, não é isso? Foram planejadas ou absorvidas por vocês? Com certeza, esse foi um dia/projeto repleto de camadas. Além da estrutura do Arco e do aspersor de água sobre a praça, tivemos, dentro deste, outro projeto artístico que foi o ônibus Carne de Carmela Gross, também integrante das atividades. Quando vocês idealizaram os distintos elementos do projeto Meio Fio como vocês visualizaram essas múltiplas camadas de informação? E ainda, retomando essa última especulação sobre as camadas, gostaria de saber sua opinião sobre o tipo de conjunção de pessoas, propostas e fluxos que tiveram lugar naquele mesmo espaço. Em que medida isso se deu porque seu proponente maior era a EMDEC/Setransp e não um Museu?

Ultradesign: Realmente as camadas envolvidas foram várias. A preparação do evento começou meses antes e culminou em atividades esportivas, brincadeiras, discursos, premiação de trabalhos escolares ligados ao tema, apresentações musicais e teatrais. Também os aspectos operacionais relativos ao trânsito, que se estenderam até quilômetros longe do evento, tornaram-se possíveis com a colocação de faixas explicativas e a distribuição de folhetos com orientação dos agentes de trânsito. Tudo isso foi programado pela EMDEC num esforço de criar uma sinergia com outros setores da sociedade, no sentido de promover uma agenda relacionada ao grande tema da melhoria da qualidade urbana, sintetizada pelo slogan "Preferência pela Vida". Outra camada foi a dos elementos físicos a serem incorporados: a exposição de novos ônibus especiais, stands de organizações não-governamentais e o próprio objeto de arte ônibus Carne. A Ultradesign, partindo de sua origem arquitetônica e urbanística, buscou incorporar todas essas camadas com o objetivo citado acima, de criar uma intervenção urbana que colaborasse com o sentido de todo o evento, ou seja, difundir a reflexão sobre o uso do carro na cidade. Em nenhum momento nos propusemos a criar um objeto autônomo, mas um elemento de amarração espaço-temporal do evento e do sítio, de onde emergia todo seu significado. Se proposto por um museu, o evento provavelmente se debruçaria sobre questões elaboradas por uma curadoria. Esse aprofundamento implicaria em uma compreensão conceitual que acabaria por elitizar sua fruição, com um caráter mais intelectual. O caráter funcional que o projeto Meio Fio assumiu dentro do evento da EMDEC deu uma abertura aos significados da intervenção que possibilitou várias camadas de experiência, acessíveis aos múltiplos grupos participantes.



com patrícia martins, entrevista para sylvia furegatti, 2006


16/09/08

- conflito em conforto -

Sobem muros e grades, fecham-se os bairros, multiplicam-se os condomínios fora da cidade. A casa K é suspensa do solo e tem um sistema ativo de segurança. Dispositivos mecânicos e eletrônicos garantem a proteção do usuário que não pode ou não quer contratar segurança particular ou morar em condomínio.

“Lofts”, “flats”, "kitchenetes", vilas e cortiços são alternativas para quem quer proximidade das áreas mais densas. Nessas áreas consolidadas, edículas e ampliações desafiam as leis de uso e ocupação do solo. A casa K otimiza esse adensamento informal, evitando improvisações e despesas desnecessárias.

Todo mundo é micro-empresário, mas sem sede própria. Todos podem trabalhar em casa, mas o trabalho muda sempre de lugar. As redes de comércio, comunicação, alimentação e outros produtos globais permitem que nos mudemos e mantenhamos hábitos de consumo. Carregamos fotos e vídeos, livros e discos, mas cada mudança implica em adaptações de mobiliário, de instalações, criação de novas rotinas. Um trailer evita essas adaptações e custos imobiliários, mas subordina a ergonomia à largura da via, mesmo quando vai ficar mais parado do que andando. Um barraco também dispensa a compra do terreno, registros, impostos, mas ele é, por definição, precário. Casas pré-fabricadas podem ser rapidamente construídas, mas dependem de terreno e na maioria são padronizadas e permanentes. A casa K não se fixa ao terreno e incorpora hábitos e memórias do usuário, que assim pode vagar confortavelmente.

Esta não é uma casa econômica, ecológica, sustentável, universal. Também não é um mostruário de novas tecnologias. Seguindo a abordagem de projetos como da Citrohan (Corbusier), Dymaxion (Fuller) ou da Casa do Futuro (Smithsons), ela se volta para as condições contemporâneas da produção, da organização social, da distribuição territorial. E mais na linha do Living 1990 (Archigram), o foco do projeto vai da produção para o consumo da arquitetura. A estandardização, racionalidade estrutural ou indutrialização dos componentes dão lugar à personalização, à adaptabilidade, à praticidade no uso. Na casa K ao invés da precisão e do espaço exato, temos a folga e o espaço generoso. Ao invés de detalhes específicos, a independência dos materiais e sistemas. A casa prioriza (...) o conforto físico e psicológico.

extraído do texto do painel da casa K, menção honrosa na Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, 2003. colaboração com patrícia martins, igor kalju e ana carolina sandoli

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- concursos e revistas de arquitetura -


Em texto na Revista Projeto a respeito do concurso (nacional de anteprojetos para a faculdade de medicina) de Botucatu, o arquiteto Jitomir Theodoro da Silva Filho apontou, em bom momento, certos desencontros que vêm ocorrendo entre promotores, organizadores e juris nos recentes concursos de arquitetura. É fato que comissões julgadoras pouco ou nada têm considerado os editais dos concursos em suas escolhas. Isso não é, porém, um fato negativo em si. Freqüentemente editais têm trazido exigências mal formuladas que, se acatadas, levariam a equívocos. Cabe ao juri questionar tanto as propostas quanto os editais para, através destes, enxergar as possibilidades das intenções de concorrentes e contratantes. Por outro lado, oque nos chega de grande parte dos juris é o uso inócuo de certos jargões (“jogo de volumes inteligente”)(...), além de xenofobia ou aparentes acessos de academicismo.
Mesmo sendo a finalidade do concurso a execução da obra, é enorme o valor da discussão possível a partir de diferentes posições daí resultantes. Raramente, no entanto, a imprensa especializada tem utilizado esses concursos como ponto de partida para discussões mais aprofundadas, limitando-se à publicação de alguns desenhos dos vencedores e de uma espécie de sinopse do evento. Algo como um Jornal Nacional dos concursos.
Mais espaço poderia e deveria ser aberto para tal, publicando-se melhores ilustrações, possibilitando às diferentes facções de um júri expor melhor suas posições, trazendo outros críticos para avaliação das propostas e os próprios concorrentes para sua exposição.
Já há, em outras mídias, excesso de linguagem telegráfica. Precisamos de uma imprensa especializada que, além de divulgar fatos consumados e publicar ensaios fechados, seja também suporte para debates.

carta publicada na Revista Projeto, setembro de 1992 e republicada em "30 Cartas Polêmicas" na Revista Projeto Especial n.o 300, fevereiro de 2005.
na imagem a proposta para o concurso de botucatu, em colaboração com patrícia martins, esther cervini e marcus cley.



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- copa do mundo no brasil -

onde você vai torcer?

recado de orkut, com caroline bampa, 2008